Os casos recorrentes de xenofobia, discriminação e racismo protagonizados pelos Estados Unidos de Donald Trump na Copa do Mundo de 2026 têm sido chancelados pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), expondo “absoluta subserviência” da entidade para um tratamento “nunca antes visto em nenhum campeonato”. Esta é a avaliação da jornalista esportiva Alicia Klein, também colunista do UOL, a Opera Mundi.
A especialista apontou particularmente gravidade com relação ao mau tratamento norte-americano ao Irã que, até mesmo antes do início do campeonato global, tem passado por transtornos e obstáculos, principalmente logísticos, no contexto da guerra no Oriente Médio após os ataques de 28 de fevereiro reivindicados pela Casa Branca.
A delegação iraniana foi proibida de pernoitar nos Estados Unidos, sendo então acolhida pelo governo do México, que juntamente com o Canadá sedia o torneio internacional; Washington se recusou a conceder vistos para 15 membros da comissão técnica e administrativa da equipe; a alocação de ingressos para torcedores iranianos na fase de grupos foi revogada; e os jogadores têm enfrentado procedimentos atípicos por autoridades da imigração estadunidense.
Logo após a estreia na Copa contra a Nova Zelândia, no Sofi Stadium, em Los Angeles, a delegação iraniana foi imediatamente obrigada a voltar para o território mexicano. Em entrevista à imprensa, o técnico Amir Ghalenoei disse que “a seleção iraniana é talvez a mais oprimida da história da Copa do Mundo”. Por sua vez, o capitão da seleção Mehdi Taremi lamentou a ausência de apoio: “a FIFA tem que nos ajudar”.
“A partir do momento em que você só tem uma nação que não está autorizada a dormir no país onde ela vai disputar todos os seus jogos, acabou a isonomia do evento”, afirma Klein. “A FIFA fez total vista grossa para o fato de que só uma das suas nações está recebendo esse tipo de tratamento e ela sabia que isso ia acontecer porque há meses Trump disse que o Irã não era bem-vindo”.
Subserviência da FIFA aos EUA
A perpetuação desses episódios discriminatórios também se explica pela relação de proximidade compartilhada entre o diretor da FIFA, Gianni Infantino, e Trump, juntamente com o endosso do primeiro a políticas e comportamentos xenófobos e racistas promovidos pelo chefe da Casa Branca.
Em novembro passado, a federação de futebol até chegou a criar um inédito “Prêmio da Paz da FIFA” apenas para entregá-lo ao republicano – este frustrado por não ganhar o Nobel da Paz –, reforçando o alinhamento da autoridade esportiva com o mandatário dos Estados Unidos.
“Para mim, essa relação até transcende o amistoso: ela é uma relação quase de vassalidade, de subserviência do Infantino para o Trump. Ela interfere na competição”, pontua. “A preocupação da FIFA sempre foi o dinheiro e, agora, ela realmente parece disposta a abrir mão de qualquer tipo de compromisso com os direitos humanos, com questões sociais em nome desse dinheiro e do poder”.
Outros episódios também ganharam forte repercussão, e de condenação, na mídia, como o caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, nomeado o melhor do continente africano, que foi barrado pelas autoridades norte-americanas, tendo seu sonho impedido de participar, pela primeira vez, de uma Copa do Mundo.
Já a jornalista brasileira Karine Alves, da TV Globo, relatou ter sido retirada da fila regular da imigração durante o ingresso nos Estados Unidos, sendo tratada de forma ríspida pelos funcionários e submetida à revista do cabelo. De acordo com a profissional da imprensa, esse procedimento só era realizado a pessoas negras.
“É definitivamente a Copa da Exclusão, a Copa da Xenofobia, e eu me preocupo bastante com o legado que esta Copa pode deixar usufruindo e se beneficiando do fator de fascínio que o evento tem. A gente realmente se deixa capturar e, então, fica mais fácil você empurrar para debaixo do tapete questões sérias que estão acontecendo nessa Copa, principalmente pelas mãos daquela que é supostamente ‘a maior democracia do mundo’. So que não”, afirma Klein.
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